Sei pouco mas sinto demais!
Gosto do cheiro da terra molhada e do toque sereno do vento roçando-se nos pinhais, sem Tempo nem Idade.
Tenho na alma a robustez das serranias e no olhar ...lágrimas de saudade!
Este é o povo que chora… lamenta a partida dos que procuram outras terras, longe, longe….
…que teme…que sofre e não entende….
Este é o povo que transporta, de geração em geração, o saber…
…as tradições, os costumes…
Este é o povo que faz filhos sem pressa e que depois, rotos e descalços, se tornam homens e mulheres de força. Homens e mulheres que trabalham no frio do inverno e esturricam sob o sol de agosto. Filhos vão à escola de mãos gretadas e unhas sujas da terra que amanham, da azeitona que apanham mas que a escola não entende, filhos que a escola humilha porque são diferentes: trabalham.
(Foto e texto de BlueShell)- PORTUGAL
Este é o povo que somente conhece domingos e dias santos para vestir um fato que se guarda para ocasiões…porque todos os dias são dias de trabalho árduo, invisível aos nossos olhos. Sim, aos nossos, gentinha fútil que se passeia pela baixa de uma cidade qualquer deambulando…vendo montras onde a luz artificial é tão artificial como o sorriso do gerente que nos tenta vender um qualquer artigo obsoleto que não usaremos nunca…
Este é o povo que ri na arranca da batata, que brinca nas desfolhadas…que estruma as vinhas, que roça mato, que limpa os currais e faz a “cama” à criação. O povo que respeita os animais e se tem de os matar é por precisar de dar de comer a um “rancho de gente”! Este é o povo que não abandona os animais porque eles estão lá, companheiros de trabalho, dia após dia. Este é o povo que aprende numa outra escola, sem humilhação, sem marginalização….
(Foto e texto de BlueShell)- PORTUGAL
Este é o povo que treme nas noites de trovoada, e reza como ninguém pedindo, entre soluços, que haja misericórdia…
Não tenho muitas palavras…
Tenho lágrimas e saudade. Tenho as memórias da tua fiel companhia ao longo destes 15 anos. Chegaste no bolso da jaqueta de ganga de uma ex-aluna…sem que o condutor do autocarro desse conta da tua presença, qual passageiro clandestino! E a minha primeira preocupação foi perguntar se tinha de te dar o biberão, de tão pequeno que eras. Foste crescendo e foste das melhores coisas que nos aconteceu, a mim e ao dono, tu sabes.
Teimoso, determinado, refilão… tive de te “ensinar” algumas regras. Sim, querias mandar. Querias ser gente e foste mais “gente” do que muita “gente” que conheço. Soubeste, à tua maneira, ser companheiro, fiel…estiveste presente nos bons e maus momentos das nossas vidas. E tu sabias, sem que nada fosse dito, quando a dona estava triste…ou preocupada. Sim, tu sabias.
Das palavras dos humanos percebias algumas, muitas até. E amuavas, bem sabes que sim, quando algo não era do teu agrado. Mas logo estavas ali…para nós, para com a tua presença nos lembrares que “estavas bem” quando os donos “estavam bem”! Lembro-me como gostavas de andar de carro, de deitar a cabeça fora do vidro e apanhar o vento …lembro como gostavas de te enfiar debaixo das mantas no inverno….ou de correr livre por entre as ervas altas, mais altas que tu…fazendo com que apenas se visse, a cada saltitar, a ponta do teu focinho e essas orelhas cobertas de “louros cabelos”….
Mas o banho…que inferno, Bonni. Era coisa que detestavas…o banho… Eu bem te dizia que era para ficares bonito…mas não havia argumento que te convencesse…”banho? Jamais”! Pois, mas os anos passaram…e agora já te custava correr. A dona sabe que aos poucos foste ficando mais fraco, menos refilão… e, ao fim de 15 anos, o dono e a dona tiveram de te deixar partir. Sei que sabias que tinha de ser. Soubeste-o antes de mim. E nos teus olhitos eu soube que era chegada a hora de te deixar descansar. Doeu, Bonni! Porra, doeu muito. Mas acredito que haja um lugar onde agora estejas em paz, sem dores, sem frio….e onde possas encontrar afecto também.
A dona e o dono vão lembrar-te sempre com muito carinho, tu sabes. Porque o sentiste, na despedida, sim, sentiste a nossa dor e soubeste que ias ficar sempre connosco. Obrigada, meu Bonni, “meu pequenino cão”, como eu te chamava…lembras-te?
O Céu deixa meus olhos livres para sonhar além da realidade.
E vejo o que mais ninguém vê. Sei o que mais ninguém sabe,
amor.
Que importa o que possam dizer de mim? Que importa o que
possam pensar de mim se te tenho a ti? A ti e à minha consciência que me iliba,
me liberta e me dá força mais e mais ainda p’ra te amar?
(Foto e texto de BlueShell)- PORTUGAL
Palavra alguma terá força para penetrar na concha que sou...na concha que me protege e nos protege, amor.
Agora, quase 30 anos depois ali
estava eu, mais uma vez, à frente daqueles jovens.
A inocência …uma inocência que
acolhe alguma traquinice, alguma irreverência e indisciplina e que é preciso “dominar “… estava ali, como
estivera quase sempre nos últimos anos.
Nunca quis ter, nas minhas aulas,
os alunos aprumados como se de soldados se tratassem. Mas sempre lhes exigi
respeito. Respeito por eles mesmos, respeito uns pelos outros, pelos pais que,
lá fora, trabalhavam de modo a que eles pudessem ter o privilégio de frequentar
a escola, e respeito por mim. E, dentro desse espírito, havia espaço para uma
aprendizagem sem necessidade de grilhões, de coação ou constrangimento. Mais: para além dos conteúdos indicados pelos
programas havia sempre espaço para uma outra aprendizagem: valores como a
humildade ,a honestidade, a misericórdia, a dignidade e outros, muitos… mas sempre
sem impor as minhas convicções político-religiosas. E ralhei…ao mesmo tempo que
dei afeto. Pois o que é o afeto se não houver reprimenda quando se erra? Quando
se procede mal? Então há que repreender porque isso significa que nos
importamos com eles, com esses jovens. E eles sentem isso. Sentem, numa
repreensão o mesmo afeto que sentem num elogio. Não de imediato, obviamente,
mas mais tarde, senti-lo-ão.
Sim, penso que fiz um bom
trabalho ao longo desses anos.
(Foto e texto de BlueShell)- PORTUGAL
Mas hoje ao olhar aqueles jovens
sinto que pouco lhes posso dar.
Há tanto cansaço, tanta desilusão….tantas
horas na escola que em vez de serem para os alunos são para os burocratas…para gáudio
dos que “vivem” em gabinetes “forrados a
papéis”!, com “cortinas feitas de papéis”…e por isso não veem para lá delas…não
veem a realidade para lá das opacas janelas desses bafientos gabinetes!!!
Cansada de ter de concordar à
força de ter de concordar… com um sistema que nada traz de profícuo a alunos…muito
menos aos do interior…sempre ostracizados e esquecidos…como há 40 anos atrás!!!
Olho para eles e vejo, nos olhos
de cada um deles, a pequena que fui…uma pequena guerreira que se aventurava de
noite pela estrada de macadame para apanhar a carreira e poder ir às aulas. Uma
pequena que se fez mulher e concretizou o sonho de ser professora. Uma
professora que sempre cumpriu com os seus deveres, que sempre foi fiel aos seus
princípios e, sobretudo, aos seus alunos. Uma professora que muito raramente
dava uma falta. Apenas por doença ou nojo! Uma professora que dava mais tempo à
escola do que à família. Que se obrigava a abdicar de tanta coisa em prol da
escola que amava….
Lembrei-me agora…Uma dia, ou
melhor, uma noite ia eu dar aulas a um curso de alunos adultos, coloquei mal o
pé no degrau pois o patamar estava com as luzes desligadas e eu caí pelas
escadas abaixo só parando no “cotovelo” da escadaria. Umas funcionárias que
andavam a fazer a limpeza ouviram meus gritos e deram comigo toda enrodilhada e
a gemer. Fui para o hospital e já não dei aulas essa noite. Mas ao outro dia lá
estava eu: pois se não tinha nada partido nem deslocado…as equimoses não eram
na língua e, mesmo sendo em quase todo o corpo, não me impediriam de dar aulas…
Tinha os olhos daqueles jovens
cravados em mim…queriam saber quem eu era, como eu era…que teria para lhes
ensinar…e eu ali, diante deles com uma imensa vontade de desistir deles. Eu ali
diante deles com um imenso cansaço, com um desalento tamanho…que chegava a doer….que
ardia na garganta e me pesava no peito. Súbito…deixei de lhes ver os rostos e
na minha mente surgiram duas imagens: as dos diretores das escolas e a do meu pai no caixão, no dia em que foi sepultado. Porquê essas duas imagens assim?
Porquê? Então era por isso que não via o rosto de meus alunos: meus olhos estavam plenos de lágrimas…e
eu não queria que elas transbordassem…não
queria , meu Deus, não queria que me vissem chorar… não ali…, por favor, não ali….
Virei-me de costas e escrevi meu
nome no quadro enquanto, disfarçadamente, secava as lágrimas.
Depois, com um ar autoritário,
disse:
- Meu nome é Isabel M. e serei
vossa professora.
Mas mentalmente pensei…. devia
dizer-lhes era-“ Julguei que era meu dever ensinar…afinal querem que eu
preencha papéis….e papéis...e papéis…”
Só que já tinha tomado uma
decisão: não iria desistir deles: contra tudo e contra todos, sujeitando-me a
todas a penalizações…o meu dever, a minha lealdade era, é e será para com os meus alunos:
lutarei por eles mesmo que eles não o saibam nunca…
Serei guerreira novamente e vencerei porque lutarei pelo que é justo…e porque sei… que tenho comigo…todos os trunfos!
Salmos 118:6
O SENHOR está comigo; não temerei o que
me pode fazer o homem.
The LORD is with me;I will not be afraid. What can man do
to me?
À minha frente rostos inquiridores! Quase tudo meninas, só
um rapaz.
Feitas as apresentações coloquei as regras, muito claras,
para que não houvesse “surpresas desagradáveis”!
Quase todos os alunos viviam fora da cidade à exceção de uma
menina.
Estatuto social…baixo….
Dificuldades…muitas, a todos os níveis.
Lembrei a minha
infância. O ter de ir a pé por meio de matas até à paragem da “carreira”…cedo,
ainda escuro… E à noite, no regresso, o mesmo percurso. Depois o ter os deveres
para fazer, o sono a vencer-me as forças…
E tinha sorte porque colegas meus ainda tinham de ajudar os
pais a recolher os rebanhos, a ordenhar, a fazer a vianda para os porcos, em
currais húmidos e fétidos.
Boa aluna, sempre. Aplicada, sabia que queria ser professora
e sabia que tinha de me esforçar: meus pais faziam um imenso sacrifício para eu
poder estudar. O mínimo que eu poderia fazer era ser boa aluna.
Toda a minha vida estudantil decorreu sem incidentes…quase
sem incidentes…até ao dia em que fui fazer um exame de Inglês. Era a nível nacional. Falava de desportos “radicais" à beira mar como o “surf” e outros…cujo nome desconhecia….
-“ Mas que raio sei eu disto??? Porventura sabem que vivo à
beira da Serra? Vi o mar algumas vezes, sim…mas colegas meus nunca viram o mar!”
Fiz o exame e tive uma boa nota. Mas aquela imagem de que
poderia ter feito melhor se o texto me “dissesse” algo…ficou cá, como um estigma!